sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Qualquer negócio.



Me deixa ser
Quem faz o laço 
da gravata 
do mordomo
que te serve o jantar
Me deixa ser
O suporte que segura 
a tela plana 
da sua sala 
no lugar

Me deixa usar 
o pé pra equilibrar 
aquela mesa bamba 
que você aposentou 
há mais de um mês
Me deixa ser 
a sua estátua 
de jardim, 
o seu cabide de casacos, 
só não me tira de vez 
da sua casa

Eu posso ser a empregada
da empregada
da empregada
da empregada
do seu tio.

Me deixa ser 
o seu pinguim 
de geladeira, 
eu fico uma semana inteira 
sem mexer
Me deixa ser
O passarinho do relógio 
que de hora em hora 
pode aparecer, 
pra eu te ver 

Me deixa ser
Quem passa a calça 
que você precisa usar 
no seu jantar 
à luz de velas 
com alguém
Me deixa ser quem deixa
Vocês dois
De carro
Em um restaurante caro
Só não deixa eu ser ninguém
na sua vida

Música e Letra: Clarice Falcão.

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